Muitos pacientes acreditam que ter cálculo renal repetidas vezes é questão de azar. Na prática, quase nunca é.
Os dados mostram que cerca de 50% das pessoas que já tiveram uma pedra nos rins voltarão a formar novos cálculos em até cinco anos se nenhuma medida preventiva for adotada.
Isso acontece porque, na maioria dos casos, existe um fator metabólico por trás da formação das pedras. Tratar apenas a crise resolve a dor, mas não impede que o problema volte.
Por que as pedras nos rins se repetem?
A urina é uma solução rica em sais e minerais. Quando há um desequilíbrio nessa composição, esses cristais podem se agrupar e formar cálculos. Pequenas alterações já são suficientes para aumentar muito o risco de recorrência.
Entre os principais fatores que investigamos estão:
- Excesso de cálcio na urina (hipercalciúria)
- Aumento do ácido úrico
- Baixos níveis de citrato, uma substância que protege contra a formação de pedras
- Alterações no pH da urina, que favorecem determinados tipos de cálculo
Essas alterações muitas vezes não causam sintomas e só são identificadas com exames específicos, como a análise metabólica da urina de 24 horas.
A importância da investigação metabólica
Após um episódio de cálculo renal — principalmente quando há recorrência — a investigação metabólica é fundamental.
Ela permite identificar qual é o tipo de pedra e por que ela está se formando, direcionando um tratamento realmente eficaz.
Sem essa avaliação, o paciente fica preso a um ciclo de crises, cirurgias e internações que poderiam ser evitadas.
Prevenção: onde realmente fazemos a diferença
A boa notícia é que, quando a causa é identificada, a chance de novas crises pode cair drasticamente. A prevenção geralmente envolve uma combinação de medidas simples e eficazes:
- Hidratação adequada, ajustada à rotina e ao clima
- Mudanças específicas na alimentação, e não apenas “beber mais água”
- Correção do consumo de sal e proteínas
- Uso de medicações, quando indicado, para corrigir alterações metabólicas
Essas estratégias são individualizadas. O que funciona para um paciente pode não funcionar para outro, justamente porque o mecanismo de formação das pedras é diferente.
O que você precisa lembrar
Cálculo renal recorrente não é algo inevitável.
O foco do tratamento moderno não é apenas remover a pedra que causou a crise, mas entender por que ela se formou e impedir que volte.
Com investigação adequada, acompanhamento regular e medidas preventivas bem orientadas, é possível quebrar o ciclo das recorrências e preservar a saúde dos rins a longo prazo.
Referências
- Türk C, et al. EAU Guidelines on Urolithiasis. European Association of Urology, 2023.
- Pearle MS, et al. Medical management of kidney stones: AUA guideline. J Urol. 2014;192(2):316–324.
- Rule AD, et al. The ROKS nomogram for predicting recurrent kidney stone formation. J Am Soc Nephrol. 2014;25(12):2878–2886.
- Curhan GC. Epidemiology of stone disease. Urol Clin North Am. 2007;34(3):287–293.
- Ferraro PM, et al. Dietary and lifestyle risk factors associated with incident kidney stones. Clin J Am Soc Nephrol. 2017;12(10):1699–1708.